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A próxima Guerra Cultural PDF Imprimir E-mail
Escrito por David Brooks   
Qua, 30 de Setembro de 2009 00:00

Séculos atrás, historiadores criaram uma teoria clássica para explicar o apogeu e o declínio das nações. A teoria era de que grandes nações começam com determinação e energia. Determinação e energia levam a riqueza e poder. Riqueza e poder levam a abundância e luxúria. Abundância e luxúria levam a decadência, corrupção e declínio.


 “A natureza humana, em nenhuma de suas formas, poderia jamais suportar a prosperidade”, escreveu John Adams em uma carta a Thomas Jefferson, alertando sobre a corrupção vindoura de seu país.

 

Ainda assim, apesar de sua impressionante riqueza, os Estados Unidos permaneceram imunes a este ciclo. O padrão de vida americano ultrapassou o europeu por volta de 1740. Mas nos EUA a abundância não levou ao declínio.

 

Isto ocorreu porque, apesar do materialismo notório da nação, sempre houve o contraponto de saudáveis valores econômicos – os colonizadores acreditavam no comedimento Calvinista. Os pioneiros foram voluntários em dificuldades brutais durante suas jornadas ao oeste. Em sucessivas ondas de imigração, os pais trabalharam duro e abnegadamente para que seus filhos pudessem ter sucesso. O governo era limitado e não protegia as pessoas das conseqüências de seus atos, desta forma reforçando a disciplina e a moderação.

 

Quando os valores econômicos decaiam, o estabelecimento de regras procurava restaurar o equilíbrio. Após a “Era Dourada”, Theodore Roosevelt (cuja aventura no Oeste compensou a suavidade da sua criação) levou o país a romper com o seu comodismo financeiro. A ordem Protestante apresentava muitas falhas, mas não era decadente. Os antigos WASPs (sigla em inglês para Protestantes Anglo-Saxões Brancos) eram claramente comedidos, enviando suas crianças a internatos espartanos, insistindo em sobriedade financeira.

 

No entanto, nos últimos anos, houve uma erosão clara nos valores financeiros da nação. Esta erosão ocorreu em um período em que os condutores dos valores culturais da nação estavam ocupados com outras coisas. Eles estavam lutando uma guerra cultural que incluía as orações nas escolas, o “Piss Christ” (fotografia de Andres Serrano mostrando um crucifixo submerso na urina do artista) e a teoria da evolução. Eles estavam discutindo sobre sexo e a separação entre Igreja e Estado, alheios à grande erosão dos valores econômicos que estava em curso sob seus pés.

 

A evidência desta mudança de valores está em todos os lugares. Alguns dos sinais são aparentemente inócuos. Estados da Federação começaram a patrocinar loterias: jogos de azar aprovados pelo governo que oneram principalmente os mais pobres. Executivos e administradores de hedge funds começaram a se gabar de pacotes de bônus que seriam considerados vergonhosos há poucas décadas. Cadeias de restaurantes entraram no modo “tamanho gigante”, oferecendo porções enormes que seriam consideradas socialmente inaceitáveis por gerações anteriores.

 

Outros sinais são mais claros. Como notou William Galston (Brookings Institution), nas três décadas entre 1950 e 1980, o consumo pessoal permaneceu bastante estável, na faixa de 62% do PIB. Nas três décadas seguintes apresentou uma alta constante, chegando a 70% do PIB em 2008.

 

Durante este período o endividamento explodiu. Em 1960, o endividamento pessoal dos americanos equivalia a 55% da renda nacional. Em 2007 este indicador atingiu 133% da renda nacional.

 

Durante os últimos meses estes números começaram a cair. Mas isto não significa que nós reestabelecemos padrões de comedimento pessoal. Nós apenas trocamos o endividamento privado pelo endividamento público. Estima-se que em 2019 o endividamento federal atingirá espantosos 83% do PIB (sem contar os custos da reforma do sistema de saúde e tudo mais). Nesse ano, só o pagamento de juros da dívida federal deverá custar 803 bilhões de dólares.

 

Estes parecem ser números enxutos, que dizem respeito quase apenas a peritos em orçamento público. Mas esses números são um sinal externo da mudança de valores. Se há uma correção a fazer, isso requer um movimento moral e cultural.

 

Nossa política cultural atual está organizada por uma guerra  cultural obsoleta, que colocou liberais seculares de um lado e conservadores religiosos do outro. Mas o deslize na moralidade econômica afetou igualmente a América Azul e a Vermelha.

 

Para que haja um movimento que restaure os valores econômicos, ele terá de cortar por inteiro a atual hierarquia econômica. Sua meta deverá ser tornar os EUA novamente uma economia produtiva e não uma economia consumista. Este movimento representará o retorno ao auto-comedimento financeiro, grande e pequeno.

 

Ele terá de combater o que se poderia chamar de ética lobista – a justa convicção, desde os membros da AARP (Associação Americana das Pessoas Aposentadas) até o agronegócio, de que seus grupos têm direito a toda apropriação possível, independentemente do maior custo público. Terá de combater a demanda popular comodista por menos impostos e mais despesas públicas.

 

Uma cruzada pelo auto-comedimento econômico teria de promover um rearranjo das atuais alianças e abraçar políticas como a de impostos sobre a energia e cortes de despesas que hoje são politicamente impossíveis. Mas este tipo de reavivamento moral é o que a nação realmente necessita.

 

 

Tradução de Flavio Quintela

 

Originalmente publicado no site: http://www.nytimes.com/2009/09/29/opinion/29brooks.html?_r=1&emc=eta1

 

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